Por vezes existem filmes assim. Filmes capazes de nos arrebatar de tal forma, pelos melhores ou pelos piores motivos, que uma análise escrita parece quase impossível sob pena de não fazer a mínima justiça ao produto em questão.
O produto em questão é um com o qual eu nada me identifico, confesso. Aliás, muito raramente me aventuro para fora do cinema americano.
"Herói" é um filme chinês, obviamente ligado às artes marciais, e com um elenco totalmente asiático a ser encabeçado por
Jet Li, cujas capacidades para a arte da representação não justificam a popularidade do actor.
Sendo assim, foi de forma muito relutante que assisti a este
"Herói" (em grande parte incentivado pelas análises do
Roberto Simões e do
Ricardo Vieira), sempre na defensiva e sempre na certeza de que o resultado final me iria desagradar.
Por vezes, há que admitir estarmos errados. Esta é uma daquelas ocasiões e, com mais ou menos preconceitos ou simplesmente gostos desfocados deste género de Cinema, em momento algum em me atreveria a dizer que
"Herói" é um mau filme.
Muito pelo contrário, a fita de
Yimou Zhang e apadrinhada por
Quentin Tarantino (uma surpresa para mim e que elevou de imediato o meu interesse pela mesma) possui um nível qualitativo superado por muito poucos dos filmes que já tive o prazer de ver.
Assim, torna-se substancialmente mais fácil referir os aspectos de
"Herói" que não me conquistaram totalmente.
O primeiro é a realização do já referido
Yimou Zhang. Não obstante o seu magnífico trabalho durante grande parte da obra, sobre o qual me expressarei mais à frente,
Zhang falha, redondamente a meu ver, nas sequências de artes marciais ao abusar clara e constantemente do slow-motion, atribuindo-lhes uma conotação de cansaço e aborrecimento totalmente desapropriada e obviamente escusada. Não sei se reunirei muito consenso neste meu ponto de vista, mas estou absolutamente convicto do que digo: se no início, o efeito era agradável e permitia uma perspectiva mais panorâmica da acção, o exagero da técnica apenas prejudicou o resultado final.
Apenas um outro obstáculo impede a minha total apreciação de
"Herói": a linha narrativa utilizada para apresentar a trama do filme. Eu, honestamente, compreendo-a. São escolhas, e a usada para o argumento de
"Herói", ao estilo de filmes como
"Os Suspeitos do Costume", nunca me agradou.
Não me consigo conformar sabendo que estão a ser gastos dezenas de minutos com informações que se vêm a revelar, total ou parcialmente, falsas. Não me agrada, não consigo gostar. Já para não falar das consequências de tal linha narrativa, nomeadamente alguma confusão (não foi o meu caso, mas com outros aconteceu). Era desnecessário.
Reitero, no entanto, que estes foram os únicos factores que não me agradaram na totalidade. Afirmar que não gostei de algo, neste fenomenal
"Herói", seria mentir.