"Clube de Combate" é, certamente, um dos mais complexos e multi facetados pedaços de Cinema que já vi na minha vida. Complexidade esta que está presente, não na apresentação dos factos e no seu desenvolvimento, mas sim na sua essência e inúmeras mensagens e alertas à sociedade nele dissimulados.
No entanto, há que clarificar desde já o seguinte aspecto acerca da fita de David Fincher: "Clube de Combate" não é um filme. Mas antes três filmes confinados a uma só designação.
Senão, veja-se.
Filme I «O Narrador e Marla Singer»
Este primeiro filme, aborda a relação d'O Narrador (Edward Norton) com a deslocada Marla Singer (Helena Bonham Carter). Este filme domina claramente a primeira meia hora de "Clube de Combate", imiscuindo-se mais tarde no segundo e terceiro filmes.
O aparecimento de Bonham Carter em cena soa, desde o início, a forçado. A personangem cai do céu e a sua relevância para a história é francamente reduzida.
A relação de Singer com O Narrador é muito pouco ortodoxa, e a forma como é preterida a favor do Filme II, também não abona a seu favor.
Resta-nos a qualidade da interpretação de Helena Bonham Carter, naquele que será provavelmente o melhor registo de toda a sua carreira.
Filme II «O aparecimento de Tyler Durden e O Clube de Combate»
Este segundo filme é, numa só palavra, ge-ni-al. É a representação mais directa da essência do argumento de Jim Uhls, é a forma mais clara de passar a mensagem de David Fincher. É a verdadeira crítica à sociedade, o grito de revolta e o abrir de olhos.
Trata-se de uma sucessão quase consecutiva de magníficas e inolvidáveis cenas de Cinema e de frases marcantes e de um carácter reflexivo, social e filosófico extremamente profundo.
Obviamente que é também neste segmento de "Clube de Combate", que podemos assistir à introdução e afirmação de uma das melhores personagens da história do Cinema: o explosivo e totalmente imprevisível Tyler Durden, um personagem verdadeiramente fenomenal e totalmente cativante, num compêndio ideal entre estilo e substância.
Personagem este que é personificado de forma soberba por um Brad Pitt no auge da sua carreira e que, entregando-se de corpo e alma ao papel, nos dá a sua mais poderosa interpretação. Brilhante, magnífica, sensacional performance.
Filme III «O Projecto Destruição e a descoberta da verdade»
Apenas uma palavra definiria na perfeição este terceiro filme: desilusão. Não foi apenas O Narrador que perdeu o controlo d'O Projecto Destruição, mas também David Fincher perdeu o controlo sobre o seu projecto... acabando por o destruir.
Na sua última hora, "Clube de Combate" sofre uma incrível reviravolta, resultante de uma radical mudança na abordagem e tendo como consequência a total aniquilação do filme.
"Clube de Combate" torna-se aborrecido, estranho, distante e atípico. Torna-se, evidentemente, num outro filme. Mas um que Brad Pitt já não protagoniza, um onde a crítica social não está presente.
O que está presente é uma manta de retalhos, onde foi colocado um dos melhores twists da história do Cinema, uma espécie de dramatismo barato e muita desorientação ao nível do argumento.
__________________________________________________________________________________
Como foi referido anteriormente, os três filmes misturam-se, evidentemente, entre si, numa disposição que segundo o autor do blogue e tendo em conta o esquema de cores apresentado, corresponde ao seguinte gráfico.
______________________________________________________________________
Conclusões? Algumas. Antes de mais, tratemos de sintetizar os elementos positivos que são comuns a estes três filmes.
Uma banda-sonora espectacular dos The Dust Brothers, uma realização soberba de David Fincher, uma grande, grande interpretação de Edward Norton e um argumento claramente mais ambicioso do que devia. E aqui, o dedo tem de ser apontado também a Fincher, pela sua grande ambição mas escassa perspicácia. Embora Fincher compense, claramente, atrás das câmaras.
"Clube de Combate" é, senão pois, um tripartido pedaço de Cinema, para todos os gostos, mas que no seu cômputo geral e infelizmente, acaba por saber a pouco.
"-When we are dying, people really listen to us instead of...
-Of just waiting for their turn to speak."
"If you wake up at a different time, in a different place, could you wake up as a different person?"
"This is your life and it's ending one minute at a time."
"We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact."
" It's only after we've lost everything that we're free to do anything."
"The things you own end up owning you."
"You have to consider the possibility that God does not like you."