Shrek


Não, o termo "revolucionário" não é um exagero. "Shrek" tem mesmo essa importância. Talvez não a nível animado, nesse aspecto o filme está "apenas" ao nível dos da Pixar, com um detalhe animado realista e soberbo.

É a nível de argumento, personagens e storytelling que "Shrek" triunfa ruidosamente. Contrariando a tendência vista até então, "Shrek" aposta na acção, na
irreverência, na originalidade e sobretudo no humor. Humor rústico, indelicado, "sujo" e indiscreto, talvez... Mas tremendamente eficaz.

Afinal de contas, o protagonista é um ogre horrível e sem maneiras (faz questão de nos mostrar isso mesmo na brilhante introdução), acompanhado por um burro falante que, com um misto de melhor amigo e sidekick, se torna numa das melhores personagens ani
madas de sempre e, quando parece entrar nos "eixos" com o resgate à Princesa Fiona, "Shrek" volta a trocar as voltas ao espectador e comprova que não esqueceu o propósito ao qual se propôs desde o seu início: marcar pela diferença.

"Shrek" não é um simples filme animado bem conseguido.
"Shrek" é uma comédia, ainda antes de ser um filme de animação, e que, graças ao já referido esquivo argumento, ao elenco responsável pelas dobragens (Eddie Murphy tem a melhor prestação na área desde a de Robin Williams em "Aladdin" (crítica aqui)) e às inúmeras referências e pormenores deliciosamente dissimulados sob a sua cobertura "infantil", se tornou um marco no género, catapultando a Dreamworks novamente para a ribalta
e vencedor do primeiro Óscar para Melhor Filme de Animação.

De referir a portentosa banda-sonora, desde a composição de Harry Gregson-Williams até à palete de canções que enriquecem esta obra-prima animada.


"That must be Lord Farquaad's castle... Do you think he's maybe compensating for something"

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Atraídos pelo Crime/Push- Os Poderosos

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Argumento limitado. O que "Atraídos pelo Crime" nos conta, já nós vimos antes. Ficam alguns clichés do género.

Vale então, indubitavelmente, pelos protagonistas Richard Gere e Ethan Hawke. Ainda assim, o maior destaque vai para Wesley Snipes, a regressar finalmente à ribalta e a protagonizar a melhor cena do filme.
De Don Cheadle já nem falo. Onde anda o carismático actor de "Romance Perigoso" (crítica aqui) e "Ocean's Eleven"
(crítica aqui) ?

Antoine Fuqua faz um trabalho seguro e atento, atrás das câmaras.





Sinceramente gostei. É um guilty pleasure, um filme sofisticado com tantos defeitos quanto qualidades.

Se por um lado temos um argumento mais esburacado que um queijo suíço, incapaz de explicar, relacionar e sustentar conceitos como os de viagem temporal e previsão de futuro de forma conclusiva, bem como portador de informação excessiva que só complica tudo (aconselho ao espectador que não tente perceber, apenas apreciar) e uma ou outra cena absolutamente ridícula, por outro temos uma realização muito competente e dinâmica de Paul McGuigan, a fazer um bom uso da fotografia e dos efeitos especiais, bem como um elenco bastante interessante.

Chris Evans é o improvável protagonista que confirma ser mesmo um bom actor, e Dakota Fanning nunca desilude, apesar de tudo. Djimon Hounson está longe dos seus melhores momentos, mas nem por isso mal, e Cliff Curtis completa o improvável elenco.

Mas "Push- Os Poderosos", não sendo um filme genial nem tão pouco consensual, consegue facilmente captar o interesse e a afeição. Além disso, percorre com substancial à-vontade (e alguma leveza) o campo do romance, sem nunca se tornar lamechas. E isso, honestamente, agrada-me.

E claro, temos ainda um excelente final como brinde, mesmo do género que me apraz.

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Diamante de Sangue


"Diamante de Sangue" levanta apenas uma única questão verdadeiramente pertinente: quem está melhor no seu papel? O intempestivo DiCaprio ou o avassalador Hounson?

O primeiro tem, na minha opinião, uma das melhores, talvez a melhor performance da sua carreira. É cruel e possessivo, numa interpretação excelente, cativante e claramente trabalhada (destaque-se o sotaque, por exemplo). É um fantástico e nada estereotipado anti-herói. A nomeação para o Óscar foi mais do que merecida, e acrescente-se que a atribuição do prémio também não defraudava ninguém.
Quanto a Djimon Hounson, é completamente avassalador. É a palavra que me ocorre sempre que penso na sua enorme interpretação, tão comovente quanto capaz. Foi também nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secundário, e apesar do prémio ser igualmente merecido, fica por perceber a adição do "Secundário", já que Hounson é tão ou mais protagonista do que DiCaprio.
Jennifer Connely dá corpo a uma personagem tão cliché e mal construída que até mete dó. Não se podia esperar mais do que uma fraca interpretação.

E porque me foquei tanto no elenco, pergunta o leitor? Bem, porque é basicamente esse o único ponto de interesse de "Diamante de Sangue", visto que a fita de Edward Zick acaba por se
perder em cenas escusadas, que tornam o argumento disperso e que têm ainda como consequência uma duração excessiva e a perda de credibilidade do filme.

A nível técnico, é maioritariamente a fotografia do our own Eduardo Serra que compõe a pintura, ao captar algumas das mais belas paisagens africanas já vistas (exemplo disso é a cena final de DiCaprio).

"Diamante de Sangue", ou "como tentar tirar partido de um bom elenco".


"I like to get kissed before I get fucked."

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Operação Swordfish


Visto agora com a devida distância temporal, "Operação Swordfish" não só proporciona uma elevadíssima dose de entretenimento e adrenalina, como também tem todas as componentes para mais um delicioso guilty pleasure.

É certo que o seu argumento revisita vários clichés, dando-se ainda ao luxo de ser mais complexo do que deveria. Tem buracos, personagens mal trabalhadas e unidimensionanis e é ainda polvilhado com um twist morno e previsível.

No entanto, "Operação Swordfish" sai claramente a ganhar nas sequências de acção delirantes, bem como no fantástico elenco, com John Travolta a encabeçá-lo e a fazer aquilo que faz melhor: vilões estilosos e de discurso eloquente.

Prova disso é aquela que ficará como uma das melhores introduções da (pelo menos) última década. Fabuloso trabalho de John Travolta, a ter direito a um monólogo maravilhoso e repleto de substância, devidamente acompanhado por uma explosão de fazer frente a muitas das de "Matrix" (crítica aqui).

A realização de Dominic Sena é elegante, realçando o estilo em tudo -desde as roupas, passando pelos acessórios e penteados (o de Travolta é... diferente) até à cintilante fotografia.
A banda-sonora também pontua.

E assim, "Operação Swordfish" é uma delícia e um genuíno guilty pleasure. Um dos maiores. E como tal...


"You know what the problem with Hollywood is? They make shit. Unbelievable, unremarkable shit."

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Terapia de Choque/Bad Boys 2


Resta saber como se deixou Jack Nicholson arrastar para um projecto destes...porque, de resto, "Terapia de Choque" é uma comédia até bastante agradável, apesar do selo de banalidade carregado por Sandler.

Mérito de Nicholson e de um elenco de secundários bastante sólido.




Hilariante, de ir ás lágrimas por vezes. Esquecendo as enervantes, longas e cansativas sequências de acção bigger than life que Bay teima em impôr, "Bad Boys 2" é um two-man s
how de Martin Lawrence e sobretudo de Will Smith.

Com uma química inegável, acompanhada por doses semelhantes de carisma e talento, os dois actores protagonizam várias cenas de um humor nada subtil, nada discreto, mas muitíssimo eficaz.


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Harry Potter e o Cálice de Fogo/Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte Um


Aclamado por muitos como o melhor filme da saga,"Harry Potter e o Cálice de Fogo" é um modesto desastre a nível de argumento,e uma curva descendente na saga do feiticeiro.

Chegando a atingir o ridículo em variados momentos (o início precipitado), o desequilibrado argumento não consegue ser compensado pelo elenco: Gary Oldman é afastado, Ralph Fiennes mal se vê e os restantes elementos são bastante secundarizados, sendo o caso de Alan Rickman o ma
is gritante.

Salva-se a realização de Mike Newell, a conseguir, vá-se lá saber como, tornar
bastante agradáveis e até épicas, cenas estruturalmente absurdas e, evidentemente, a marcante prestação de um sempre muito competente Brendan Gleeson, compondo um dos mais memoráveis personagens de toda a saga, e que tantas saudades deixa nos capítulos seguintes.



Eis, aqui sim, a verdadeira definição de filme-ponte. "Os Talismãs da Morte: Parte Um" é um empecilho de duas horas e meia, que arrasta aquilo que podia ter sido apresentado talvez numa única hora.

Uma belíssima, e simultâneamente miserável, manobra de marketing, da qual apenas se recorda o segmento animado d'Os Três Irmãos.

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Sem Limites


Partindo de uma premissa absolutamente fenomenal e profundamente original, "Sem Limites" é um dos títulos mais interessantes do presente ano e uma proposta de entretenimento tão viciante quanto a droga que apresenta.

É certo que com um ponto de partida destes (o de uma droga capaz de nos fazer aceder a 100% do cérebro, tornando-nos muito mais inteligentes), era difícil fazer um mau filme.
Mas, ainda assim, seria injusto não referir a dinâmica realização de Neil Burger (algumas sequências são de cortar a respiração) e a forte presença e carisma de Bradley Cooper, actor cada vez mais em voga e portador de substancial talento.

E já que estamos no elenco, vale a pena referir a presença segura de Abbie Cornish e de Robert De Niro, evidentemente longe das suas melhores prestações, mas a emanar um certo "brilho" que já não víamos com frequência há vários anos.

Sim, é evidente que "Sem Limites", apesar de tudo, fica aquém do seu potencial. Embora com uma primeira parte soberba, profundamente cativante, "Sem Limites" acaba por incorrer, sensivelmente a meio, por uma série de clichés, deixando à vista alguns buracos no argumento que depois tenta tapar por meio de uma série de facilitismos e atalhos narrativos, muitíssimo exagerados e claramente discutíveis.

Apesar de ficar o suspiro por algo maior, "Sem Limites" é efectivamente uma proposta de grande entretenimento e representativa de uma lufada de ar fresco no género.


"A tablet a day and I was Limitless..."

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O Planeta dos Macacos


O problema reside na produção. Tim Burton, realizador por quem nutro uma especial antipatia, bem tenta tornar "O Planeta dos Macacos" num épico à medida de, segundo dizem, "O Homem que veio do Futuro".

Mas os valores de produção deixam demais, demais a desejar: fotografia, guarda-roupa, efeitos especiais ou figurantes. Não deixam o filme ir mais longe. O que é uma pena.

A excepção é a caracterização. Fantástico trabalho, tão bom que chega a "engolir" alguns dos actores, como é o caso de Helena Bonham Carter.

Não obstante estes defeitos, acabei por gostar bastante deste "O Planeta dos Macacos", que tudo deve à estrondosa interpretação de Tim Roth. Brilhante trabalho do actor, a compor uma vilão inesquecível enquanto obtém uma das melhores interpretações da sua carreira. Igualmente brilhante é o trabalho de caracterização, que torna o personagem realmente intimidador.

O restante elenco é regular. Mark Wahlberg não tem estofo para protagonista e Estella Warren é só uma cara bonita. Os secundários Michael Clarke Duncan e Paul Giamatti, por seu lado, estão bastante bem.

Quanto à história em si, é interessante, embora se acabe por perder (confundir?) com intrigas políticas e muita disfunção espacio-temporal.

O final agradou-me. Dá uma sensação de desconforto e impotência deliciosa.

Acabo por encontrar mais defeitos do que qualidades neste "O Planeta dos Macacos", e concluo que... não consigo justificar a minha classificação...


"Everything in the human culture takes place below the waist."

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Ocean's Eleven


Era necessário um verdadeiro punho de ferro -e igualmente sólido talento- para transformar "Ocean's Eleven" num grande filme e não num desfile de estrelas.
É na frescura e jovialidade de Steven Soderbergh que este talento foi depositado.

Soderbergh tem à sua disposição elementos indispensáveis para a obtenção da qualidade desejada, começando, desde já, pelo magnífico escrito de Ted Griffin. Nunca um heist movie nos pareceu tão credível, tão realista, tão diferenciado de todos os outros. Aqui está a prova de que não são necessárias grandes cenas de acção, "apenas" diálogos verdadeiramente avassaladores e uma palete de personagens inesquecível e extremamente variada.

Recorde-se, por exemplo, a complexidade e abrangência da descrição feita por Rusty (o papel para o qual Brad Pitt nasceu) a Danny (George Clooney) do grupo ideal de profissionais necessários para a realização do assalto, ou do magnífico, verdadeiramente magnífico diálogo entre Danny e Tess (Julia Roberts), no seu primeiro encontro:

"-Does he make you laugh?
-He doesn't make me cry."

Para além disto, o argumento de Griffin dissimula pequenos e delicados apontamentos de um grande e delicioso humor. Humor infinitamente mais eficaz e menos "brejeiro" do que o que nos é apresentado, por exemplo, por "Scary Movie- Um Susto do Filme" (crítica aqui) e que constituem a faceta do entretenimento que "Ocean's Eleven" proporciona de forma tão categórica.

O segundo elemento fundamental é a banda-sonora de David Holmes. É impressionante, o encaixe perfeito entre o filme e a maior parte das sequências musicais. A banda-sonora transpira o ambiente descontraído e o sentido de coolness visto no filme, e parece fazer ecoar na nossa mente os nomes de, por exemplo, Brad Pitt ou até mesmo Las Vegas.

E, finalmente, o elenco, o grande e majestoso elenco, a maior junção de grandes estrelas do Cinema nos últimos 10 anos, pelo menos. Mas mais impressionante do que tamanho aglomerado de grandes actores, é a constatação de que todos são soberbamente dirigidos por Soderbergh, que dá a cada um destes actores o necessário espaço para brilhar.

Os elementos que mais se destacam são, inevitavelmente, os protagonistas George Clooney e Brad Pitt. Pitt, em particular, está mais com mais estilo do que nunca. E o melhor? É que a substância também não é descurada.
A merecer destaque está também Andy Garcia, naquela que é a melhor interpretação de toda a sua carreira.
O restante elenco está, sem nenhum tipo de excepção, fantástico. Que direcção de actores brilhante.

"Ocean's Eleven" recorda-me ainda "Blade Runner", pela forma tão magistral como Steven Soderbergh realiza, ocultando e mascarando a sua genialidade nas mais diversas cenas e fazendo de "Ocean's Eleven" uma obra com pormenores a descobrir com cada nova visualização.

A lente de Soderbergh capta de tudo, desde o humor, passando pela intriga e até algum drama.O sentido de estilo, o ritmo rápido mas nunca precipitado, a cintilante fotografia e a manipulação feita ao espectador, quando consagrados com os aspectos já referidos, fazem de "Ocean's Eleven" um dos melhores filmes que já vi, bem como o heist movie por excelência.


"You guys are pros. The best. I'm sure you can make it out of the casino. Of course, lest we forget, once you're out the front door, you're still in the middle of the fucking desert!"

"-I always confuse Monet and Manet. Now which one married his mistress?
-Monet.
-Right, and then Manet had syphilis.
-They also painted occasionally."

"-You're a thief and a liar.
-I only lied about being a thief, I don't do that anymore.
-Steal?
-Lie.
-I'm with someone who doesn't have to make that kind of distinction.
-No, he's very clear on both."



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Harry Potter e o Príncipe Misterioso


Era difícil para David Yates fazer pior neste sexto capítulo do que fez em "A Ordem da Fénix" (crítica aqui).
Mas de facto, e após uma nova visualização, há que dar a mão à palmatória e admiti-lo com franqueza: "O Príncipe Misterioso" é o melhor filme de toda a saga desde "O Prisioneiro de Azkaban" (crítica aqui) e um belíssimo pedaço de entretenimento.

A faceta "adulta" manifesta-se uma vez mais, mas agora com sobriedade e profissionalismo. "O Príncipe Misterioso" é portador de um par de grandes cenas (o encontro de Dumbledore com Tom Riddle será a mais intensa e memorável, conseguindo verdadeiramente imponente e provando que não são essenciais grandes segmentos de acção, para um saldo final francamente positivo. E aqui, o mérito, esse, é todo de David Yates.

Yates que consegue ainda arrancar a melhor interpretação de um Daniel Radcliffe cujas perspectivas de talento pareciam já ter sido exterminadas, após as desastrosas prestações dos últimos dois filmes. Também Michael Gambon merece um grande destaque graças à sua soberba interpretação, a fazer esquecer, por fim, que já existiu um outro actor na pele de Albus Dumbledore. Verdadeiramente estonteante, o modo como o actor desenvolve a figura paternal mas ainda assim temível do director de Hogwarts, num registo infinitamente superior a todos os restantes do actor na saga.

Apenas o argumento deita a perder grande parte do potencial do filme, com toda a trama envolvendo o Príncipe Misterioso a ser inexplicavelmente esquecida, a favor dos romances banais de Ron.

Mas, ainda assim, reitero o resultado final acima da média, e sobretudo surpreendente. Custa a acreditar que os responsáveis por este filme são os mesmos do capítulo anterior.

"-Did you know, sir? Then?
-Did I know that I just met the most dangerous dark wizard of all time? No.
"

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