A Viagem de Chihiro


Esta análise contém SPOILERS.

"A Viagem de Chihiro" é, provavelmente, o mais belo filme de animação que já vi. É o ponto mais alto da carreira de um génio do audiovisual (já me mentalizei que Hayao Miyazaki é, nestas duas vertentes (aqui fica uma palavra à fenomenal banda-sonora), genial), um triunfo a nível técnico e que garantiu ao veterano Miyazaki o Óscar para Melhor Filme de Animação (distinção merecida, refira-se).

Aqui, excepcionalmente (pelo menos de acordo com o que já vi), Miyazaki funde a típica animação manual com alguns retoques digitais que apenas embelezam mais o que, por si só, já é magnífico. Mais do que utilizar é saber utilizar bem, e Hayao Miyazaki serve-se do complemento digital, apenas e só, quando estritamente necessário.
E o efeito é quase indescritível. O melhor mesmo será recordar aquela que é, a meu ver, a mais bem conseguida cena animada de "A Viagem de Chihiro", e que se trata do momento em que Chihiro segue Haku por entre um magnífico corredor de rosas.
Linda, lindíssima cena. Lindo, lindíssimo filme.

É portanto ainda mais frustrante constatar que Hayao Miyazaki continua a não obter o pleno, falhando assim em elevar "A Viagem de Chihiro" à categoria de obra-prima animada, ainda para mais quando tinha todas as possibilidades (e expectativas da minha parte) para o fazer.
Aqui, ao contrário do que aconteceu em "Kiki-Aprendiz de Feiticeira", onde pouco havia para contar, existe... de mais para contar. O facto é que o argumento acaba por tropeçar em si próprio e precipitar-se no seu climáx, revelando as fragilidades que queríamos ignorar até aí.

Falo, concretamente, da volta que sofre "A Viagem de Chihiro" a partir do encontro de Chihiro com a forma-dragão de Haku. A acção passa a assumir um ritmo extremamente e incompreensivelmente rápido, é-nos apresentada demasiada informação (personagens novas, relato de actos passados, e a própria temática que dificulta uma compreensão imediata, já que existem transformações, mudanças de forma e personagens fisicamente semelhantes) e dado pouco tempo para a digerir.

De repente, "A Viagem de Chihiro" chega ao fim e apenas restam as óbvias questões provocadas pelos buracos e incoerências do argumento:
"-Qual é a função do Sem-Face em toda a história? Quais as suas origens? Porque razão come três pessoas e muda radicalmente de temperamento?";
"Qual a função do espírito do rio? Perderam-se 20 minutos de filme no banho, porquê? Para poder dar a Chihiro aquele alimento? Só isso?";
-"Como é que Zeniba, ao contrário da sua irmã Yubaba e após pouquíssimo tempo, é tão simpática com Chihiro e companhia? A mesma Zeniba que nem hesitou em transformar o sobrinho, o bebé gigante, num rato?"

-"E qual é, afinal, a relação entre Haku e Chihiro? De amor? De amizade? É passado? Presente?"

Meros exemplos mas que ilustram bem o meu ponto de vista. Quanto mais não seja, e de uma perspectiva optimista, "A Viagem de Chihiro" precisará sempre de uma segunda visualização.



7 Eloquentes Intervenções Escritas:

João Bastos disse...

Não sei se é o mais belo filme de animação, mas está certamente no meu TOP 3. De um mestre como Myazaki nao se espera outra coisa que não uma obra-prima!

CINE31 disse...

Ainda não vi todos os filmes do mestre, mas este é o meu 3º favorito, atrás de Princesa Mononoke e Nausicaa. Concordo com a generalidade da tua critica, acho que histórias de divindades e criaturas sobrenaturais do folclore asiático têm sempre algum sentido ou simbolismo que é um bocado difícil de perceber a 100% para ocidentais como nós. De qualquer modo, a parte final deixa sempre um sabor a pouco...mas continua a ser um filme soberbo, a nível visual e sonoro, que transborda imaginação :-D

Jackie Brown disse...

João,

Obviamente que também não tenho a certeza, mas lá que é um belísssimo filme, é.
Daí a obra-prima é que ainda vai um bocado ;)


CINE,

Não vi nenhum dos títulos que referes. A Princesa Mononoke será analisado neste especial, mas Nausicaa (tal como outros) terá de ficar de fora...

Nem creio que o maior problema seja esse. O facto de não me identificar particularmente com aquele ambiente, não me impediu de gostar (até certo ponto).

O final deixa um travo muito amargo, mesmo. Aliás o filme dá semelhante volta que se torna difícil apanhar a acção, culminando num final realmente descabido.

Mas sim, a nível visual e sonoro, é soberbo.
Com muita imaginação, mas fraca concretização.


Cumprimentos e obrigado pelos comentários!

Roberto F. A. Simões disse...

Gosto muito do filme, como sabes. Mas de facto as tuas questões são por demais pertinentes e não tenho respostas muito congruentes para elas. Hei-de investigar e quem sabe ponderar a nota do filme. São, realmente, questões muito pertinentes.

Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema

Jackie Brown disse...

Roberto,

Fico muito satisfeito por saber que a minha crítica provocou tal reflexão em ti.

Lanço então o desafio: encontra respostas para as minhas perguntas.
Mas olha que ainda tenho mais, as que pus foi só para deixar passar a mensagem ;)

Abraço

Loot disse...

Gosto muito de Miyazaki, este não é excepção. É um belo filme.

abraço

Jackie Brown disse...

Loot,

E bem, é um realizador "para se gostar". ;)
Estamos de acordo: um belo filme. Mas falta qualquer coisa.

Abraço e obrigado :)

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