Match Point(Crítico Convidado-Filipe Coutinho)




"The man who said "I'd rather be lucky than good" saw deeply into life. People are afraid to face how great a part of life is dependent on luck. It's scary to think so much is out of one's control. There are moments in a match when the ball hits the top of the net, and for a split second, it can either go forward or fall back. With a little luck, it goes forward, and you win. Or maybe it doesn't, and you lose.". É desta intensa e verídica forma que começa Match Point, de Woody Allen, enquanto vemos uma bola de ténis passar a rede de um lado para o outro de forma sucessiva. Mas a verdade é que o filme também poderia terminar desta forma ou não fosse este um bravo resumo de uma intriga digna da mais sublime das tragédias gregas (não é por acaso que as ilhas do dito país são mencionadas não raras vezes), potente e extremamente desconfortável. Contudo, esta afirmação assume-se como sendo uma pequena componente da ironia patente na existência de cada um. Afinal, e por muito paradoxal que possa parecer, algumas vitórias dão-se quando a bola bate na rede e não passa para o outro lado. São as melhores? Dificilmente seriam ou não fossem aquelas que mais sentimentos de culpa acarretam. E é assustador pensar o quão poderosos estes podem ser e ainda mais desgastante ter o "infortúnio" de os viver.

De certa forma, esta fita relembra dois trabalhos totalmente distintos de Woody. Temos, por um lado, a complexa relação entre marido e amante explorada de forma brilhante em Crimes and Misdemeanors e, por outro, uma face trágica e extremamente pesada fascinantemente dissecada em Cassandra's Dream (possivelmente um dos seus trabalhos mais subvalorizados e quanto a mim um dos seus melhores). Apesar de Match Point surgir depois do primeiro e antes do segundo percebe-se a direcção que a carreira do realizador seguiu e a forma como planeava dar-lhe seguimento. Muitos poderão ser condescendentes face à narrativa lenta mas esta é perfeita para desenvolver as personagens e para criar a tensão necessária para o final explosivo que supera todas as expectativas. A forma como Allen, tanto através da escrita como através das imagens, consegue provar o poder da sorte e a ironia do destino é tão fenomenal quanto imprevisível. Quando o espectador pensava que estava na presença de uma massiva derrota acaba por presenciar uma esmagadora vitória que, no entanto, não é digna de aplausos. E toda a construção da trama é realizada tendo em vista a ascensão de um jovem britânico na classe alta londrina. Também aqui presenciamos uma mordaz crítica à "classe ociosa" (nas palavras de Veblen, que certamente concordaria que este trabalho representava, de certa forma, a sua obra) onde o capital económico nunca se apresentou como uma problemática para a vida diária. E o nosso "herói" sente precisamente essa dificuldade em abandonar uma vida confortável repleta de privilégios sociais em prol de uma paixão representativa de desejo e obsessão. De resto, estas componentes são cruciais para a compreensão de todo o filme seja pela vertente trágica ou pelo ideal emanado por valores rígidos que roçam a perfeição.

É impossível ignorar a obra de Dostoievsky e, em particular, o seu mais contemplado trabalho "Crime e Castigo". A junção dos seus ingredientes problematicamente existenciais com a refinada escolha musical de Woody, com realce para a ópera, culmina num portentoso jogo de identidades que vão representando a mudança de mentalidade de um homem à beira do desespero. E que dizer da interpretação de Jonathan Rhys Meyers? Absolutamente soberba. Apenas acentua a facilidade que Woody detém em levar os seus pupilos ao extremo, exacerbando as suas capacidades. É certo que as restantes interpretações são igualmente notáveis mas não se justifica realizar extensivas análises às mesmas quando o que realmente interessa, o que verdadeiramente importa é a enfatizar a forma como o realizador se diverte a fazer jogos com temáticas que afectam tantos e a forma como cruelmente põe o espectador perante um dilema moral. Inconsequente é certo mas, em certa medida, extremamente perturbador. Só o tempo dirá se se tornará numa obra-prima. Para já fica o ideal de uma entidade cinematográfica magnífica.
A Frase
"You have to learn to push the guilt under the rug and move on, otherwise it overwhelms you"

9/10


Esta análise é totalmente elaborada por Filipe Coutinho e foi gentilmente cedida ao Cinemajb.

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